segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Taj Mahalla - Cap.1


Disseram que aquela construção foi feita por um próspero líder de Hagran.

Uma homenagem à sua mulher.
Quando criança eu não entendia muito, só queria ficar observando do alto
de seu belo terraço, a fascinante vista da natureza ao redor. O silêncio só era quebrado com o barulho dos pássaros e do vento refrescante.
Nada mais importava - apenas estar ali.

O tempo parava. A sensação do nada, agora entendo porque ficava tão à vontade, tão perto de Deus. Muitas vezes eu deitei e fiquei a olhar atavés do arco o dia esvaír-se
vagarosamente e todas as coisas saírem do lugar e mudar de cores ao caminhar do sol. Confesso que ainda assim, não entendia bem o que tudo aquilo queria dizer para mim. Qual o sentido maior? o sentimento cabal?

Saí do templo e nem sequer percebi a presença de alguém. É mister ter sempre um padre zelando pelas angústias alheias, entretanto, não vi quem estava lá, nem sua respiração, nem seu consentimento para sair.

Cristo ali estava, em cada vitral, carregando toda a culpa de um povo em momentos singulares de doação e terror. Aquela cruz era demasiado aos olhos de qualquer mortal, por isso, sua imortalidade, certamente. Os seus pulsos destroçados pela punição e sua coroa levemente atordoando o seu juízo tinha um propósito...
...qual? Eu não sei.

Para mim era um simples corpo miserável escolhido pela supremacia romana, há quem diga que os "seus" que clamaram calar a sua boca divina e temível. Como todos os outros, sangrou até a morte, teve toda a sorte dos desprivilégios de quem era crucificado e as lamúrias dos mais íntimos. O rosto sofrido e cansado denunciava sua exaustão.

A escuridão do templo realçava os vitrais e escondiam outros detalhes que seriam revelados aos poucos pela curiosidade ou pela freqüência. Á noite o dourado se fazia presente e o fogos das velas embelezava e vestia o espaço de mistério e deslumbramento. O acabamento embora pedisse clemência, o ouro nos finos detalhes dos arcos e cálices surgere vigor. Mas tudo respirava o sagrado com detalhes pitorescos até onde a vista poderia alcançar e os ouvidos deixar-se seduzir-se pelo canto latino.

Nunca será o meu lugar, não pertenço a Ele, este homem que jaz na cruz todos os dias. Homem. Sagrado. Louco. Talvez qualquer uma dessas palavras lhe baste. Olhando bem nos seus olhos clementes, nunca me senti menor. Isso eu não sou. Deixo a sua marca em mim
sem qualquer identificação ancestral.

Nos meus 14 anos eu já era um guerreiro com a missão de honrar o meu povo e o meu lugar. O caminho já estava escrito. Passeium ano entre desertos, vales e montanhas aprendendo e conhecendo as artimanhas de um bom soldado com a devoção de um
homem de fé. Sangue e fé sempre andaram juntos com minhas dúvidas e posteriores convicções.

Eu tinha orgulho da minha espada, todos os garotos que almejavam serem bons guerreiros se orgulhavam de sua arma. Meus amigos tinham orgulho e zelo por suas armas, além do Alcorão na ponta da língua, além da cor marrom dos diversos dias cavalgando.

Na escadaria do lado de fora do templo cristão, as paredes altas, detalhadas e imprecisas pelo tempo estão guardadas pelas pombas. A chuva fina escurece o céu e esfria as almas.
As árvores verdes-sombrias e suas folhas secas no jardim longo e gramado me deixam incomodado. Mas é apenas um curto momento.

Nasci num lugar de sol escaldante e de vida arredia. Das tempestades de areia e dos corpos encharcados pelo suor diurno. Nestas horas respiro, mesmo que falsamente, a brisa sagrada num lufar e tudo me lembra as ruelas tão cheias de cores, sabores e odores.

Os poucos amigos vivos que ainda me restam revivem aquela época como faço agora, bebidas, temperos, incensos; toda a sorte de especiarias. As recordações são mais fortes quando vejo o mar, quando vejo alguns sofrendo por deixarem suas amadas no amargor
da esperança.

A vida já não é à toa quando me encontrava criança. Minha alma dói.

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