
Caminhei no convento com um passo pesado, o torpor do espírito é maior do que as respostas do corpo. Lá estão ainda os vestígios da sangrenta batalha onde ela fora assassinada. Curiosos dizem que ainda escutam os sons das espadas, os gritos de pavor e fúria entre os vãos. Não consigo deter-me aos fatos, mas tenho a lembrança de sua determinação nas lutas; a sua face marcada pela certeza de que esta era a sua verdade.
Poderia ficar assustado após tantos anos e manter os mais sensíveis num aspecto curioso de angústia de não terem participado, mas, de alguma forma, foram beneficiados com aquele momento. Os mais velhos nos ensinou o longo caminho da resignação, da aceitação, do equilíbrio. Algumas manifestações religiosas se fazem presente, e como é do feitio dos
cristãos, a dor da morte é algo permanente. Por isso ainda há vestígios de toda ordem neste lugar. Ossos, sangue, peças das armas, roupas e para eles, o cheiro. Nada apodreceu para eles. Tudo se perpetua.
Talvez devam gostar da essência da batalha. Pensei que a luta seria apenas o meio e não, a conclusão. Não gostaria muito de falar sobre tais acontecimentos, mas há sempre alguém solicitando jugamentos. É verdade que faço parte, em vida, dessa história, para muitos aterrorizante...
A proteção desse lugar se dá através destes conhecimentos e tudo deve ficar como está para que muitas gerações contemplem, questionem e tirem as suas conclusões ou permaneçam em suas indagações. Quem mais poderia proteger esta parte da história senão o sangue dos que aqui lutaram? A eterna criação do bem e do mal, entretanto, nesse caso, não há apenas uma moeda com duas faces, e sim duas faces e duas moedas. Sinto que alguém me observa, isso me deixa muito desconfortável, percebi assim que permaneci absorto em pensamentos,
com o olhar fixo no lugar onde vi a queda da minha amada. Mesmo assim, completamente racional, sinto a dor de um homem que ama, chego a sentir a raiva instalar-se e prefiro não me deixar levar pelas circunstâncias. Encostei-me na parede, de cabeça baixa, e meu turbante
atrapalha a visão de quem me observa. Ergui propositadamente a cabeça com
a visão direcionada e de repente quem ali estava, saíra prudentemente.
Onde ela poderia estar agora? - Aqui meu amor - sua voz! Um doce sussurro.
Deus decidiu presentear-me com o delírio? Percorri os corredores atrás de alguma presença humana, acredito no poder divino, mas tudo ainda está muito vivo para mim. Certamente ainda estou envolvido em lembranças muito mais reais do que se possa imaginar. Ninguém sai ileso de uma grande batalha, nem de um verdadeiro amor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário